quarta-feira, 4 de março de 2015

Mantendo-se em pé

Luz? Como? Eu estava vendo a luz? Meus olhos abriam vagarosamente do estupor. Vinham a minha mente imagens de um momento estarrecedor e moribundo como na tela de Edvard Munch. O que fôra toda aquela gritaria? Os alunos e professores corriam desorientados e trôpegos. Estavam evacuando a escola, mas eu estava ali na sala dos professores, deitada sobre o sofá, recuperando-me de uma síncope. Eu deveria ter fugido quando começou, mas ainda estava ali. Porém, não ouvia mais o barulho dos tiros vindo de fora, nem sirenes dos carros de polícia, nem das carteiras caindo, nem dos estudantes aturdidos. Ninguém mais estava clamando por socorro. No momento em que pensei que fôra deixada ali, meu professor adentrou a sala.
_Luana, você acordou? Ainda bem! Trouxe água. – disse assim que a vi despertar, menos angustiado. Eu estava ajudando a evacuar a escola, mas no meio a tanto estardalhaço e medo, as pessoas não conseguiam manter a calma e tudo só piorava. Derrubaram-na no corredor, então, mais do que depressa corri para a socorrer. Ela desmaiou. Pedia para que chamassem algum policial que estava dando cobertura aos que fugiam, mas ninguém parecia me ouvir, quando prestavam alguma atenção, não retornavam com alguma confirmação de ajuda. Todos queriam salvar apenas as suas próprias vidas, era cada um por si. Esse era o truísmo. Contando apenas comigo mesmo, levei-a até a sala dos professores, onde ela ficaria mais segura até que acordasse. Enquanto a acomodava no sofá, pensei que acabaria ficando ali e seria tarde demais para sairmos depois, mas não deixaria para trás uma aluna querida! Nesse mesmo instante, ouvi um aluno interpelando.
_Professor Álvaro, está precisando de ajuda? – quando ouvi alguém dizendo que o professor precisava da ajuda de um policial para levar a Luana para casa, fui imediatamente procurar por um. Embora eu fosse uma mala como todos diziam, era prestativo quando necessário e não deixaria o professor que eu mais gostava de encher a paciência. Esquivei-me dos estudantes atônitos e cheguei rapidamente até a frente da escola. Eu tentei falar com um ou outro, mas eles estavam muito concentrados atirando naquelas coisas, não prestavam atenção no que eu dizia. Era assustador! Aquelas pessoas desfiguradas, muito mais nonsense que personagem de ficção de Tarantino, pessoas conhecidas transformadas em mortos-vivos cambaleantes e insaciáveis. Com a aproximação das criaturas, os policiais alertaram em voz alta que as pessoas se apressassem, pois eles deixariam o local, já que não teriam reforços. Assim, percebi que seria inútil continuar pedindo por ajuda e fui ao encontro do meu professor para avisá-lo. As salas estavam caóticas, o lugar já emudecendo diante do iminente abandono. Então, cheguei à sala dos professores onde encontrei o meu amigo e professor acomodando no sofá a aluna que era da outra sala. Assim que reconheceu a minha voz, ele me respondeu com alegria:
_Gabriel, que bom que está aqui!

Então, eu fui levantando e vi que estava junto com o professor Álvaro e um aluno da outra sala, chamado Gabriel. O professor relatou que a escola já estava completamente evacuada, porém tínhamos ficado para trás. Ele me explicou que quando fui derrubada no meio da correria, eu desmaiei, então ele ficou ali para me ajudar e o Gabriel quis prestar socorro também. Começara no final da tarde do dia anterior, já era manhã seguinte quando despertei. Não sabíamos como tinha acontecido tão rápido, mas pelo menos estávamos ali, vivos! 

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