Luz? Como? Eu
estava vendo a luz? Meus olhos abriam vagarosamente do estupor. Vinham a minha
mente imagens de um momento estarrecedor e moribundo como na tela de Edvard
Munch. O que fôra toda aquela gritaria? Os alunos e professores corriam
desorientados e trôpegos. Estavam evacuando a escola, mas eu estava ali na sala
dos professores, deitada sobre o sofá, recuperando-me de uma síncope. Eu
deveria ter fugido quando começou, mas ainda estava ali. Porém, não ouvia mais
o barulho dos tiros vindo de fora, nem sirenes dos carros de polícia, nem das
carteiras caindo, nem dos estudantes aturdidos. Ninguém mais estava clamando
por socorro. No momento em que pensei que fôra deixada ali, meu professor
adentrou a sala.
_Luana, você
acordou? Ainda bem! Trouxe água. – disse assim que a vi despertar, menos
angustiado. Eu estava ajudando a evacuar a escola, mas no meio a tanto
estardalhaço e medo, as pessoas não conseguiam manter a calma e tudo só piorava.
Derrubaram-na no corredor, então, mais do que depressa corri para a socorrer. Ela
desmaiou. Pedia para que chamassem algum policial que estava dando cobertura aos
que fugiam, mas ninguém parecia me ouvir, quando prestavam alguma atenção, não
retornavam com alguma confirmação de ajuda. Todos queriam salvar apenas as suas
próprias vidas, era cada um por si. Esse era o truísmo. Contando apenas comigo
mesmo, levei-a até a sala dos professores, onde ela ficaria mais segura até que
acordasse. Enquanto a acomodava no sofá, pensei que acabaria ficando ali e
seria tarde demais para sairmos depois, mas não deixaria para trás uma aluna
querida! Nesse mesmo instante, ouvi um aluno interpelando.
_Professor
Álvaro, está precisando de ajuda? – quando ouvi alguém dizendo que o professor
precisava da ajuda de um policial para levar a Luana para casa, fui imediatamente
procurar por um. Embora eu fosse uma mala como todos diziam, era prestativo
quando necessário e não deixaria o professor que eu mais gostava de encher a
paciência. Esquivei-me dos estudantes atônitos e cheguei rapidamente até a
frente da escola. Eu tentei falar com um ou outro, mas eles estavam muito
concentrados atirando naquelas coisas, não prestavam atenção no que eu dizia.
Era assustador! Aquelas pessoas desfiguradas, muito mais nonsense que personagem de ficção de Tarantino, pessoas conhecidas
transformadas em mortos-vivos cambaleantes e insaciáveis. Com a aproximação das
criaturas, os policiais alertaram em voz alta que as pessoas se apressassem,
pois eles deixariam o local, já que não teriam reforços. Assim, percebi que
seria inútil continuar pedindo por ajuda e fui ao encontro do meu professor
para avisá-lo. As salas estavam caóticas, o lugar já emudecendo diante do
iminente abandono. Então, cheguei à sala dos professores onde encontrei o meu
amigo e professor acomodando no sofá a aluna que era da outra sala. Assim que
reconheceu a minha voz, ele me respondeu com alegria:
_Gabriel, que
bom que está aqui!
Então, eu fui
levantando e vi que estava junto com o professor Álvaro e um aluno da outra
sala, chamado Gabriel. O professor relatou que a escola já estava completamente
evacuada, porém tínhamos ficado para trás. Ele me explicou que quando fui
derrubada no meio da correria, eu desmaiei, então ele ficou ali para me ajudar
e o Gabriel quis prestar socorro também. Começara no final da tarde do dia
anterior, já era manhã seguinte quando despertei. Não sabíamos como tinha
acontecido tão rápido, mas pelo menos estávamos ali, vivos!

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